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A banalização do ensino de tecnologia

E alguns dos cuidados que podemos ter com o mercado aquecido

6 min. de leitura

Foto por Nathan Dumlao

Meu primeiro contato com desenvolvimento foi em meados de 2011, quando eu entrei no ensino médio integrado ao técnico do IFSP lá de Cubatão, na baixada santista em São Paulo.

O que me motivou a entrar de cabeça na área de tecnologia foram justamente as figuras que lecionaram pra mim na época.

Ter professores e professoras que, além de possuírem uma ótima didática, também alinhavam sua experiência de mercado técnico com o ensino acadêmico da tecnologia, simplesmente me fascinou.

Desde então isso foi como um objetivo pra mim. Eu procuro constantemente me aprimorar e, quando possível, também ajudar outras pessoas a atingirem seus objetivos através da tecnologia. Caso tenha curiosidade a página sobre mim e meu perfil do LinkedIn podem contar um pouco mais em detalhe todas as iniciativas que eu já participei, sejam elas relacionadas ao ensino da tecnologia ou não, assim podemos focar no que importa nesse texto.

O fato é: mercado de tecnologia e seu ensino "informal" (podemos chamar assim?) estão tomando algumas proporções interessantes, mas eu acho que alguns pontos precisam ser levados em consideração, principalmente se você pretende fazer parte dessa fatia, seja "ensinando" ou "aprendendo".

Notas gerais sobre o ensino da tecnologia e a auto-aprendizagem

O ensino da tecnologia, no geral, tem vias muito informais.

Diferente de algumas áreas de atuação como química, direito, medicina, construção civil e várias outras, você não precisa, necessariamente, dedicar alguns anos da sua vida em uma faculdade para exercer uma profissão.

A questão é que, essa dedicação não deixa de ser importante e eu até diria que é ainda mais importante, caso você opte por não seguir um caminho acadêmico mais tradicional.

O que imprime tanta importância à essa dedicação é justamente a responsabilidade, maturidade e a reflexão que uma pessoa precisa ter sobre si mesma como desenvolvedora, quando segue vias de ensino "informais". Justamente por não ter exemplos mais clássicos e estar à mercê do vasto conteúdo que existe por aí, você vai depender muito mais de si para sua evolução (inclusive, ficando às custas das suas próprias lacunas de conhecimento).

Pode vir, a água tá quentinha!

E é justamente nesse cenário que estamos vivendo, que você pode notar um crescimento e a ascensão das escolas e iniciativas na área de ensino da tecnologia, sejam elas de cunho afirmativo ou não.

Eu não sei você, mas eu já perdi as contas de quantos anúncios eu vi de que sobrarão centenas de milhares de vagas na tecnologia até determinado ano. Isso não é algo ruim, muito pelo contrário! Eu quero mais é ver a galera prosperando, entrando no mercado, enchendo o bolso de dinheiro e realizando sonhos...

O problema está justamente no discurso e na venda de ideais, principalmente quando elas não se tornam realidade.

O crescimento e o fato de ser um mercado tão aquecido, principalmente se compararmos a realidade de outros mercados (principalmente em meio ao caos da pandemia), está trazendo muitas novidades e, como toda onda, tem gente que surfa nela da maneira mais fácil possível.

Não é difícil produzir conteúdo e vestir a capa de influencer, né?

E isso pode até parecer verdade... Estudar, montar uma grade, pensar em um conteúdo do ponto de vista de quem não tem conhecimento sobre um assunto e digerir qualquer assunto técnico pra ser entendível mais facilmente é uma tarefa muito, muito árdua e nem todo mundo tem paciência, dedicação e vontade pra fazer isso.

Desenvolvimento é sobre abstração e automação. Se você pode automatizar alguma coisa e torná-la mais simples e rápida, por quê não?! Dinheiro, fama e seguidores de forma fácil... Muitas vezes é mais simples cortar alguns caminhos e, convenhamos, demora muito menos do que, de fato, se dedicar, estudar, aprender e ter o mínimo de domínio sobre algum assunto.

Mas isso começa a ser um ponto de atenção quando figuras começam a tomar uma voz e serem "influenciadoras" promovendo conteúdos com qualidade duvidosa.

Por favor, não me entenda mal. Eu sou muito à favor da aprendizagem de forma prática. Muitos conceitos você só aprende e reforça quanto coloca em prática e ter feedback de pessoas é uma ótima maneira de se aprimorar. Qualquer pessoa é suscetível a erros e faz parte da aprendizagem de qualquer um.

No entanto, aprender dessa maneira, errar, corrigir e melhorar é muito diferente de vestir uma capa e se portar como uma pessoa que possui propriedade sobre algum assunto sem ter conhecimentos básicos sobre ele.

O que mais me espanta é que não é preciso de muito tempo de pesquisa pra encontrar um perfil (seja profissional ou de alguma entidade de ensino) com diversos traços que deixam bem claros a falta de domínio sobre determinado assunto técnico.

Não é novidade que a comunidade de tecnologia (alô, Twitter!) adora polêmica e de tempos em tempos surge com algumas discussões sobre esse assunto. Provavelmente você até já ouviu a discussão sobre "sênior com 2 anos de experiência" e o que me espanta é que, essa mesmas pessoas, promovem e dão voz a muitas outras com tão pouca experiência quanto o/a "sênior de 2 anos" e que ocupam cargos ainda mais altos (por motivos como esse que você não vai me ver dando carteirada de cargo por aí). Isso acontece simplesmente por que tal figura X ou Y usa um discurso extremamente polarizado e populista.

A partir do momento que sua aprendizagem e opiniões repleta somente de acertos e condecorações diminuem a opinião e a trajetória de outra pessoa, você não está aprendendo, está só vestindo essa capa de influencer e maquiando seus erros com um discurso de sucesso.

Não custa dizer que tudo que comentei não invalida, de forma alguma, diversas outras pessoas/empresas que, com certeza, levam educação à sério. Só acho que "o outro lado da moeda" também precisa de atenção.

E isso me leva ao ponto mais importante até aqui.

"Tu te tornas eternamente responsável pelas besteiras que ensinas"

Quando você se coloca na posição de uma pessoa pronta pra ensinar, você também adquire responsabilidades.

É impossível se colocar em uma cena de mentoria ou qualquer profissional que exerça uma atividade de educação sem, gratuitamente, ser responsável pelo ensino daquelas pessoas estão ali pra aprender com você.

Você não pode simplesmente se preocupar em passar um conteúdo X ou Y e tomar tudo que você disse como verdade absoluta.

Criar, escrever, divulgar e ensinar são papeis que envolvem muito erro e não "tá tudo bem" simplesmente achar que um erro de um conceito pode ser relevado, pois a pessoa que você ensina errado hoje vai ser a pessoa que vai sofrer futuramente pra reaprender alguma coisa de forma certa ou a pessoa que vai tomar bomba num processo seletivo por sua causa.

Isso não retira o seu direito de errar, aprender e crescer junto com as pessoas ao seu redor (eu, particularmente acho isso a parte mais fantástica das dinâmicas de ensino). Só deixa claro que a responsabilidade sobre o ensino de outra pessoa é enorme a partir do momento que você se coloca como uma figura de referência.

O critério vem antes do like

E tudo isso é pra dizer: tenha cuidado. Se você achou que eu ia terminar esse post falando sobre pessoa X ou Y, pra você deixar de seguir ou corre pra acompanhar alguém, você se enganou...

Minha ideia é que você, com tudo isso que comentei até aqui, possa ser uma pessoa mais criteriosa.

Se você gosta de conteúdo X ou Y, está aprendendo e isso tá te fazendo crescer, ótimo! É isso que o mercado precisa.

Entretanto, muitas vezes, pensar um pouco antes de compartilhar algo que uma figura "influenciadora" de tecnologia disse é importante, assim como ter atenção se essa figura realmente tem propriedade sobre o assunto que ela está divulgando.Principalmente se essa mensagem for trazer alguma opinião caótica e extremista sobre algo, diminuindo ou refutando parte das pessoas que estão nesse meio.

Além disso, tornar uma pessoa ou instituição como fonte única de informação e de "verdade absoluta" também pode te privar de muitas coisas.

Muitas vezes você pode estar compartilhando inverdades ou conteúdos que ferem conceitos básicos sem se dar conta e eu falo isso por experiência própria.

Refletir, analisar e acompanhar as pessoas que realmente produzem conteúdo com propriedade, dedicação e carinho é difícil, mas com certeza vai te ensinar muito mais do que qualquer pessoa que decida só vestir uma capa por aí.


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